Sobre fazer o que se acredita

Será que fiz a coisa certa? Será que vou conseguir? Isto ou aquilo? Casar ou comprar uma bicicleta? Falar ou não falar? Ao contrário da música, será que me contentarei em ter aquela velha opinião formada sobre tudo ao invés de preferir ser uma metamorfose ambulante? Será que sei quem sou? Importa para mim o que vão pensar de mim? Perdi meu tempo? Será que meu jeito tem lugar neste mundo? Sou bem diferente! Na verdade, há algo de errado em não ter grandes aspirações e querer ter uma vidinha tranquila? Essas e infinitas outras dúvidas e frustrações e medos surgem todos os dias e eu mesma presencio muitas delas no meu trabalho de psicoterapeuta.

Conseguir ser mais si mesma e seguir o que se acredita não significa que sempre estará tudo certo e fluindo, e não significa que não haverá dúvidas e desafios. É desafiador manter nossa integridade e autenticidade diante de tantas demandas externas. Mesmo porque vamos nos construindo com o tempo.

Mas diante de tantas “fórmulas mágicas”, “ideais de sucesso”, “padrões de beleza”, diante do “status” que dizem que devemos seguir, vejo que deixar de “viver-se” pode ser bem adoecedor, principalmente quando nos perdemos de nosso eixo mais espontâneo. Somos tentadas a nos desviar de nós mesmas.

Os desafios cotidianos nos exigem respostas pessoais, mas sentimos que exigem também que sejamos “um jeito” já estabelecido arbitrariamente fora de nossas conexões. Sabemos que nem sempre esse “jeito” tem a ver com a gente. Muitas vezes temos que lidar com cabeças balançando em desaprovação. Mas essas desaprovações podem ser nossas visões interiores de medos apenas nossos projetados nos outros. Pode ser também que estejamos colocando muito peso ao que os outros dizem ou pensam de nós, ou querem de nós. O peso das expectativas alheias, e  principalmente as nossas próprias expectativas sobre nós mesmas é uma avalanche prejudicial, se deixarmos pesar. É como um pinheiro, ou se deixa a neve deslizar, ou ela quebrará o pinheiro na branquetude fria. É preciso certas habilidades.

Temos também nossas próprias dúvidas e inseguranças, naturalmente. E acho que dúvidas não são ruins, pelo contrário, às vezes são muito necessárias para nos fazer pensar nas possibilidades e ponderar e também nos preparar e fazer aprender. Mas sei também que em algum momento as dúvidas frustrantes precisam ser superadas, embora surgirão outras.
Sabe, eu mesma um dia desses tragicamente me peguei pensando algo do tipo: “nossa, vou fazer aniversário, e aqueles meus sonhos mais profundos da minha juventude? Não consegui concretizá-los ainda, poxa”.

É uma proeza ser si mesma e fazer o que se acredita! Em princípio nos descobrir, depois nos preparar, depois nos desvencilhar das nossas próprias confusões, depois ter clareza de quem somos, do que queremos, o que absorver, o que assimilar, o que atravessar e quando simplesmente nada fazer e somente apreciar e esperar. Depois vem a parte que é se situar no espaço entre tantos outros e fazer o que acreditamos, o que nos realiza. Mesmo que seja compreender que a proeza da vida de uma pessoa não seja algo tão fabuloso aos olhos externos, mas algo que precisa ser reconhecido pela própria pessoa como sua própria e valiosa proeza. Digo isso pois hoje há uma pressão para ter que fazer algo muito extraordinário da vida segundo os parâmetros de alguns. Não acho que a corrida seja uns contra os outros para ir atrás de ser grande, ou corresponder a um certo estilo visto como o melhor, e que só poucos podem conquistar. A questão é mais profunda, é encontrar seu próprio lugar.

Mas há momentos que  parece árduo se posicionar. Parece ser mais fácil seguir o padrão, o esperado, e o “normal”. Contudo, é tão mais fácil que cansa, que complica ainda mais, que nos deixa totalmente esgotadas, nos drena a vitalidade, nos dá náuseas….e por isso a gente retorna e não se rende, pois o fácil é intragável. É quando lembro de Jung ao dizer que a pessoa que tem certa atitude espontânea quando embarca numa constante repressão de sua atitude espontânea pode entrar numa grande neurose, cuja saída só é conseguida com o restabelecimento de sua atitude mais espontânea. Parece que para certos gênios viver de forma espontânea os mantêm conectados com suas aspirações.  Digo que  recentemente conheci a história de Philippe Petit, gênio, e fiquei encantada e tensa, tensa pois não sou ele, não estou no lugar dele. Mas encantada pela espontaneidade, coragem, determinação e sua simplicidade de vida, muito audaciosa. Ele tinha grande conhecimento de suas próprias capacidades.

Para Petit não havia nada que o desviasse, ele estava convicto de sua corda bamba, com tremenda certeza: “eu sou um equilibrista”. Então, quando ganhamos confiança ao afirmar nossas buscas mais genuínas, fazer o que se acredita é um caminho inevitável. Por ser o mais autêntico, é o mais realizador. Para Petit, as torres o chamavam, a corda bamba era seu lugar de conexão profunda consigo. Ufa, que alívio para mim que não sou Petit, e que graça para Petit que naturalmente estava pleno, pois estava em um lugar muito seu: em cima da corda. Para Petit, ele não poderia sair da corda em dúvida, a dúvida precisava ser superada para exaltar a confiança.

Mas se na vida os planos parecerem fracassar, e se alguém nos disser “sim, você perdeu”, ou “fim da linha”, ou “desça já daí”, busque reviver seu lugar interior tão seu e espontâneo que poderá chegar a vislumbres apaziguadores de quem conhece as próprias motivações e capacidades. Então, busque se conhecer!

E lendo as  palavras de um outro gênio, Darcy Ribeiro, compreendi que acima de tudo é preciso saber onde está o seu próprio lugar. Suas palavras simplesmente inundaram minhas convicções com reconfortante paz, e encanto de quem ao falar de fracassos tem confiança de vitórias. Darcy disse com estas palavras e me fez sorrir leve:

“Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”

Sim, eu detestaria estar no lugar de quem me venceu. Há valores para mim que são inalienáveis. Tenhamos os gênios como inspiração, mas encontremos o nosso próprio lugar. 

Ana Terra Araújo

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