Tradições Familiares

Todo domingo depois do almoço é um momento em que as mulheres da minha família se reúnem espontaneamente para fazer as unhas e conversar. Hábito que se tornou tradição e vem com afetos que preenchem com cuidado. Fazer as próprias unhas ou as unhas umas das outras é algo forte entre nós. Habilidade que eu desenvolvi cedo na vida. As novas gerações já se acercam deste hábito com gosto. Quem diria? Eu me lembro de muitos momentos da infância em que ficávamos ao redor das tias fazendo as unhas na mesa da varanda ou da cozinha… e já estive com minha sobrinha naturalmente a fazer unhas na varanda e na mesa da cozinha. Vejo que este costume é alegre, é amoroso, é convivência e autocuidado e me faz bem e faz bem às mulheres. Eu gosto disso!

Tradições familiares, temos nos dado conta de como elas estão presentes em nossos dias? Aqueles costumes, hábitos e crenças que vão se repetindo e vão se consolidando ao longo do tempo e acabam sendo mantidos e transmitidos. Certas tradições tem o poder de unir a família, de trazer o sentimento de pertencimento, e vão formando laços fortes em que ficamos ligados com intimidade e afetividade. As tradições nos fazem sentir que aqueles costumes fazem parte de nós, são íntimos a nós. E podemos nos identificar com essas tradições ao ponto delas comporem a nossa identidade e configurarem a forma como pensamos, agimos e nos posicionamos no mundo – a personalidade, e um pouco de quem nós somos. Há tradições integradoras e benéficas, nos configuram na mente com beleza e transcendência, sentimos orgulhosos de pertencermos a elas, fazemos questão de criar mémoria, para mantermos vivos os afetos, e a história que nos engrandece e nos liga uns aos outros com satisfação.

Em contrapartida, há também tradições que são avessas ao nosso modo de pensar e agir, e ao invés de nos identificarmos com elas, elas nos parecem estranhas, não nos correspondem, não nos preenchem. Podemos nos sentir como peixes fora d’agua e confusos, com dificuldades de nos  compreendermos, dificuldades de nos relacionarmos. E por querermos romper com estes costumes e crenças acabamos nos afastando das pessoas. Certas tradições não são bases em que podemos nos apoiar. E este estranhamento ou discordância pode nos levar a questionar e a romper para buscarmos o que vale a pena para nós. Romper também pode ser parte importante do processo de nos construírmos em quem somos e quem desejamos ser. Faz parte do crescer romper com alguns costumes ou crenças para adquirirmos outros e ampliarmos horizontes. As vezes podemos incorporar as tradições que não nos correspondem apenas pelo desejo de pertencimento à nossa família e isso nos faz agir com inautenticidade. Há tradições que nos machucam e podem aprisionar. É preciso muita auto-observação e consciência para escolher nos desligar disso que não nos representa. Romper nem sempre é fácil, pode vir com muita dor, muita confusão e conflitos. É conflituoso nadar na direção contrária. Podemos achar que estamos perdendo nossos elos de ligação… Talvez não queremos perder nossas ligações, mas somente não queremos carregar mais aquelas tradições… Não é fácil!

É um alívio romper e viver diferente daquela tradição que não nos representa. Mas é também apaziguador pertencer a tradições que revigoram com bons afetos nossos dias, criam encontros, fortalecem nossas convivências. No compartilhar trocamos, nos renovamos e nos abastecemos.

E as perguntas que ficam são: temos ciência dos costumes e hábitos que não nos representam?  Temos conseguido romper sem necessariamente desfazer os laços afetivos e a convivência? Para romper é necessário distanciar fisicamente das pessoas? Temos conseguido compreender nossa história, exaltar o que é bom, desfrutar das tradições que nos correspondem e nos tornam vivos de afetos?

Ana Terra Araújo

Restaurar Feridas

Tigelas de cerâmica. Heranças dos antepassados. Há também objetos escolhidos para compor a nossa casa, usos cotidianos. São como as nossas histórias e nossas vidas. São como as heranças recebidas dos nossos familiares, são como as relações que nos estruturaram e que nos estruturam. Nós crescemos e nos formamos, nos tornamos quem somos a partir de tudo o que recebemos, valores, costumes, histórias e de tudo o que construímos nas vivências com os outros e o mundo.

  As tigelas da nossa existência foram moldadas por mãos de muitos e pelas nossas. Todos nós já recebemos heranças cuidadas, preciosas e imaculadas. Tigelas inteiras, guardadas, protegidas, amadas, cuidadas com zelo. Mas também já recebemos heranças quebradas, algumas remendadas, outras maltratadas, cacos, vasos lascados, furos nos cântaros sem remendos. Aí a água nos vasa. Sentimo-nos largados, fragmentados, soltos e perdidos, escapantes, desunidos. Estrutura danificada, desestruturada. 

  E crescemos assim tentando juntar os cacos, colar as partes, viver com o que temos. Por vezes, com violência, quebraram os pratos diante dos nossos olhos, nos machucaram, nos assustaram. Quebram aquilo que temos de precioso! E continuamos a quebrar, sem outras referências e por descuido, por ignorância, por não sabermos segurar o pires com firmeza, talvez… 

  Mas apesar de tudo  temos em nós a arte de restaurar feridas… e por vezes precisamos de ajuda, de outras relações, de outras referências e de uma nova cultura, uma sociedade que saiba também a arte de reunir e não apenas de quebrar. Mas em nós vamos restaurando à nossa maneira. Tapamos furos, sobram outros. Vamos dando o nosso jeito. Somos criativos. Com nossos vasos na cabeça carregamos a nossa água com a criatividade que nos cabe. 

  Contudo, em nossa casa podem haver muitos utensílios lascados, em perigo de novamente uma xícara destas, lascadas, cortar a nossa boca. É ferida aberta prestes a sangrar os lábios de alguém. Aquilo que se quebra, que se lasca na nossa história, na nossa herança, na relação com os costumes e afetos diários do hoje e do passado faz parte de nós como dor, como imperfeição, como machucado, como tragédia. Que tragédia ver minha louça mais rica destroçar-se. 

   Nós temos saídas! Aquilo que se quebrou e ficou como ferida aberta ou que está prestes a cortar os lábios e causar feridas pode ser reconstituído, recomposto, reconstruído, não de qualquer forma, mas com cuidado, trabalho minucioso, delicadeza e processo. É um processo de beleza e que chamamos de arte. 

  Como é lindo este processo de restauração de nossa história, de olhar amoroso para nossas imperfeições. Quando somos capazes de restaurar e remendar nossas feridas, com o ouro da vontade de ainda degustar um chá naquela mesma xícara, nós veremos que aquela xícara ganhou novo brilho e tem muito mais valor. Quando a gente reelabora, reconstitui colocando com criatividade a nossa capacidade de reunir o que ficou quebrado, nunca mais aquela xícara será como antes. Sua beleza se elevou a outro patamar, a outro valor, ainda maior. E é obra-prima e única. Não há outra igual! 

   É amor-próprio reconstruir-se. É dar novo sentido. É não desistir. Os japoneses criaram o kintsugi, a arte de reconstituir com ouro objetos quebrados, que deixam transparecer as marcas das fragilidades vividas. Como somos frágeis! Mas da reconstrução mostramos autenticidade, ninguém se quebra da mesma forma, com os mesmos cacos. Ninguém se reconstrói da mesma forma, com o mesmo desenho.

  Esse processo de reconstrução nos torna únicos e muito mais belos do que antes. Nossas marcas de dor são expostas. Elas revelam fragilidade, trabalho, tempo de cuidado, beleza, autenticidade, paciência. É um processo que aos poucos fazemos com elegância. É quando aprendemos que de nossas dores podemos reluzir! 

Ana Terra Araújo

O medo de estar perdendo algo

Não é só sobre o medo de estar perdendo algo, mas sobre achar que irá perder uma coisa muito boa e que vai se arrepender para o resto da vida. Primeiro é achar que vai perder, depois achar que vai se arrepender, depois imaginar os prejuízos que terá ao perder e achar que vai perder “a melhor coisa da vida”. Isso faz parte, nos ajuda a pensar as coisas para ponderar. É fato, é preciso muita ponderação! Mas além desse medo, está aquele outro medo que nos faz hesitar e nos paralisa para agir. E aquele medo que vem depois de agir, a insegurança sobre se fez a escolha certa ou não.

Esses medos todos, vez ou outra, nos assaltam quando surgem situações em que precisamos escolher entre uma coisa e outra. Ninguém quer trocar uma bicicleta por um queijo. Ops… é verdade que em certas circunstâncias mais vale ficar com o queijo. Mas digamos que a bicicleta seja mais legal do que um queijo, como fica isso? Eu mesma já troquei uma “bicicleta” por um “queijo” achando que estava fazendo o melhor. A gente se equivoca em nossas convicções. Dentro da avaliação que eu fiz na época, considerei que aquilo que as pessoas estavam chamando de “bicicleta”, para mim, era um grande “queijo”. O que elas achavam que era um queijo da furada eu olhava e via a bicicleta dos sonhos. Aí depois descobri que era o grande queijo da furada. E dessa vez, por incrível que pareça, senti o maior medo de sair fora daquele queijo da furada. Interessante não é? Parece que a gente se perde nos critérios e precisamos olhar e dizer “confia, tá sentindo o cheiro de queijo? É queijo da furada”. É preciso muita ponderação! E aí é bem mais legal ouvir “eu te ajudo a levantar dessas nuvens de bicicletas” do que um ríspido “bem que te avisei”, não é?

Que história é essa de queijo e bicicleta? O que eu estou tentando dizer com muita dificuldade sobre queijos e bicicletas é que tudo tem que ser bem avaliado e nem sempre as coisas parecem ser como são. Nós precisamos ficar bem atentos para ouvir fatos e fenômenos e intuições. E nem sempre acertamos! Por isso a vida é um constante aprender, construir, refazer o caminho e RECONSTRUIR. Por isso eu gosto muito da psicoterapia, ela nos ajuda a reconstruir o que ficou arrasado pelo caminho.

Construção é uma capacidade humana. E nesta capacidade para construir também somos dotados ou vamos nos dotando a ter critérios para avaliar as coisas. Nós temos critérios para tocar essências. Eu também já tive muitas bicicletas legais! Quando pensamos sobre querer o melhor, estamos pensando no que é essencial para nós, o que faz uma coisa ganhar muitos pontinhos em relação à outra. Essencial, aquilo que está na estrutura, tipo rodas de bicicleta, que sem elas não dá para andar.

Diante de uma situação de angústia e indecisão sobre “ficar ou partir” vale se perguntar “o que há de essencial nas situações que faz com que um lado possa ganhar mais pontinhos do que outro?”. O que me faz preferir uma bicicleta a um queijo ou um queijo a uma bicicleta? E onde está o queijo real desta história e onde está a bicicleta real? É preciso compreender os critérios e tocar essências. As vezes a coisa não se mostra como tal, ou por algum motivo, não a vemos como tal.

Nem sempre temos clareza de nossos critérios. A dúvida é justamente aquilo que nos indaga e faz abrir nossas percepções. Que critérios não estão claros para que eu duvide se quero isto ou aquilo? Além dos critérios, existe uma outra coisa envolvida que é a incerteza. Não temos garantias do que será e do que poderia ter sido. O “será” e o “mas e se” tanto podem nos ajudar como nos perturbar. Outra questão envolvida é que além de buscar critérios para avaliar e de compreensão sobre as incertezas é buscar ter forças e coragem para impulsionar as ações.

As vezes temos critérios, já entendemos que não há garantias, mas a gente não tem forças para agir e sustentar uma decisão. Sair de um lado para ir a outro fica super difícil. Ou, as vezes temos força para agir mas nenhuma compreensão sobre os critérios e se são bons critérios e, normalmente, neste caso, a gente não costuma temer e isso é também um perigo. As vezes temos os critérios, temos força e condições propícias, mas admitir as incertezas nos chateia e a gente hesita e é dizer “apesar das incertezas, como eu resolvo isso?”.

Ficar no relacionamento ou partir? Ficar no emprego ou buscar outro? Ficar neste curso ou mudar para outro? Fazer parte deste grupo ou ir para outro? Engajar-se em obter respostas que nos faz sentir e dizer “eu decidi”, com consciência, nem sempre é fácil. Um tanto de pensar para avaliar e escolher. É bom não ignorar o que é essencial. Muitas vezes a pessoa me diz “será que isso vai ser o melhor?” e eu pergunto “como estão seus critérios nesta balança?”.

Em um momento de insegurança, uma pessoa me diz algo do tipo “acho que perdi, escolhi errado em ter saído” e pergunto ” você gostaria de estar lá?” e a pessoa responde “não, daquele jeito não”. Então, é legal rever o processo que levou à escolha. E se um dia constatar uma má escolha real que lance arrependimento, acolher a dor, e engajar-se em reconstrução.

Sabe, nada acontece igual para todo mundo. Queijo ou bicicleta é algo que cada um vai precisar olhar e rever bem de perto.

Ana Terra Araújo de Oliveira

Sobre fazer o que se acredita

Será que fiz a coisa certa? Será que vou conseguir? Isto ou aquilo? Casar ou comprar uma bicicleta? Falar ou não falar? Ao contrário da música, será que me contentarei em ter aquela velha opinião formada sobre tudo ao invés de preferir ser uma metamorfose ambulante? Será que sei quem sou? Importa para mim o que vão pensar de mim? Perdi meu tempo? Será que meu jeito tem lugar neste mundo? Sou bem diferente! Na verdade, há algo de errado em não ter grandes aspirações e querer ter uma vidinha tranquila? Essas e infinitas outras dúvidas e frustrações e medos surgem todos os dias e eu mesma presencio muitas delas no meu trabalho de psicoterapeuta.

Conseguir ser mais si mesma e seguir o que se acredita não significa que sempre estará tudo certo e fluindo, e não significa que não haverá dúvidas e desafios. É desafiador manter nossa integridade e autenticidade diante de tantas demandas externas. Mesmo porque vamos nos construindo com o tempo.

Mas diante de tantas “fórmulas mágicas”, “ideais de sucesso”, “padrões de beleza”, diante do “status” que dizem que devemos seguir, vejo que deixar de “viver-se” pode ser bem adoecedor, principalmente quando nos perdemos de nosso eixo mais espontâneo. Somos tentadas a nos desviar de nós mesmas.

Os desafios cotidianos nos exigem respostas pessoais, mas sentimos que exigem também que sejamos “um jeito” já estabelecido arbitrariamente fora de nossas conexões. Sabemos que nem sempre esse “jeito” tem a ver com a gente. Muitas vezes temos que lidar com cabeças balançando em desaprovação. Mas essas desaprovações podem ser nossas visões interiores de medos apenas nossos projetados nos outros. Pode ser também que estejamos colocando muito peso ao que os outros dizem ou pensam de nós, ou querem de nós. O peso das expectativas alheias, e  principalmente as nossas próprias expectativas sobre nós mesmas é uma avalanche prejudicial, se deixarmos pesar. É como um pinheiro, ou se deixa a neve deslizar, ou ela quebrará o pinheiro na branquetude fria. É preciso certas habilidades.

Temos também nossas próprias dúvidas e inseguranças, naturalmente. E acho que dúvidas não são ruins, pelo contrário, às vezes são muito necessárias para nos fazer pensar nas possibilidades e ponderar e também nos preparar e fazer aprender. Mas sei também que em algum momento as dúvidas frustrantes precisam ser superadas, embora surgirão outras.
Sabe, eu mesma um dia desses tragicamente me peguei pensando algo do tipo: “nossa, vou fazer aniversário, e aqueles meus sonhos mais profundos da minha juventude? Não consegui concretizá-los ainda, poxa”.

É uma proeza ser si mesma e fazer o que se acredita! Em princípio nos descobrir, depois nos preparar, depois nos desvencilhar das nossas próprias confusões, depois ter clareza de quem somos, do que queremos, o que absorver, o que assimilar, o que atravessar e quando simplesmente nada fazer e somente apreciar e esperar. Depois vem a parte que é se situar no espaço entre tantos outros e fazer o que acreditamos, o que nos realiza. Mesmo que seja compreender que a proeza da vida de uma pessoa não seja algo tão fabuloso aos olhos externos, mas algo que precisa ser reconhecido pela própria pessoa como sua própria e valiosa proeza. Digo isso pois hoje há uma pressão para ter que fazer algo muito extraordinário da vida segundo os parâmetros de alguns. Não acho que a corrida seja uns contra os outros para ir atrás de ser grande, ou corresponder a um certo estilo visto como o melhor, e que só poucos podem conquistar. A questão é mais profunda, é encontrar seu próprio lugar.

Mas há momentos que  parece árduo se posicionar. Parece ser mais fácil seguir o padrão, o esperado, e o “normal”. Contudo, é tão mais fácil que cansa, que complica ainda mais, que nos deixa totalmente esgotadas, nos drena a vitalidade, nos dá náuseas….e por isso a gente retorna e não se rende, pois o fácil é intragável. É quando lembro de Jung ao dizer que a pessoa que tem certa atitude espontânea quando embarca numa constante repressão de sua atitude espontânea pode entrar numa grande neurose, cuja saída só é conseguida com o restabelecimento de sua atitude mais espontânea. Parece que para certos gênios viver de forma espontânea os mantêm conectados com suas aspirações.  Digo que  recentemente conheci a história de Philippe Petit, gênio, e fiquei encantada e tensa, tensa pois não sou ele, não estou no lugar dele. Mas encantada pela espontaneidade, coragem, determinação e sua simplicidade de vida, muito audaciosa. Ele tinha grande conhecimento de suas próprias capacidades.

Para Petit não havia nada que o desviasse, ele estava convicto de sua corda bamba, com tremenda certeza: “eu sou um equilibrista”. Então, quando ganhamos confiança ao afirmar nossas buscas mais genuínas, fazer o que se acredita é um caminho inevitável. Por ser o mais autêntico, é o mais realizador. Para Petit, as torres o chamavam, a corda bamba era seu lugar de conexão profunda consigo. Ufa, que alívio para mim que não sou Petit, e que graça para Petit que naturalmente estava pleno, pois estava em um lugar muito seu: em cima da corda. Para Petit, ele não poderia sair da corda em dúvida, a dúvida precisava ser superada para exaltar a confiança.

Mas se na vida os planos parecerem fracassar, e se alguém nos disser “sim, você perdeu”, ou “fim da linha”, ou “desça já daí”, busque reviver seu lugar interior tão seu e espontâneo que poderá chegar a vislumbres apaziguadores de quem conhece as próprias motivações e capacidades. Então, busque se conhecer!

E lendo as  palavras de um outro gênio, Darcy Ribeiro, compreendi que acima de tudo é preciso saber onde está o seu próprio lugar. Suas palavras simplesmente inundaram minhas convicções com reconfortante paz, e encanto de quem ao falar de fracassos tem confiança de vitórias. Darcy disse com estas palavras e me fez sorrir leve:

“Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”

Sim, eu detestaria estar no lugar de quem me venceu. Há valores para mim que são inalienáveis. Tenhamos os gênios como inspiração, mas encontremos o nosso próprio lugar. 

Ana Terra Araújo

Noites no App de Relacionamentos

Vou curtir, Túlio o nome dele, bonito, gostei do nome também, cabelo estiloso, barbinha bem feita, sorrisinho meigo, gostei. Esse não, esse não, esse não… Foto escura demais, não dá para ver nem o olho da pessoa. Gente, nossa, esse aqui está muito lindo, se veste bem, ai que sorriso, tem um olhar bonito, ai gente, é arquiteto. Lindo. Adoro gente que gosta de decoração. Gosta de sair para comer bem, viajar, ler livros. Nossa, demais! Gosta de cachorro. Uhuuu, eu também, me parece inteligente. Nos fins de semana sai para pedalar. Está muito top, transmite uma coisa boa, sabe? Liandro, que nome lindo. Liandro, Liandro, soa bem…Li. Acho que já estou gostando. Aí gente, mandaram mensagem. “Você gosta de dançar?”… blá, blá, blá… 2 horas se passaram… “Legal, eu também já participei de um grupo de mountain bike”, “Quer sair?”, “Desculpa, não entendi”, “Não foi isso que quis dizer”. Que estranho esse Túlio, não gostei do jeito dele conversar. O Sila nem me respondeu, parou de falar comigo. Será que me achou feia? Estou me sentindo meio triste. Será que não sou bonita? Ah, Pena que o Li nem me mandou mensagem. Nossa, já são 2 horas da manhã. Ah, agora eu fiquei pensando nisso. Deixa pra lá, vou dormir.

Enquanto isso no travesseiro pensamentos rolando sem que você tenha total percepção: “estou me sentindo uma pessoa não interessante, será que não gostaram de mim?, não sou uma mulher bonita!”. É hora de acordar e: “Oi, bom dia, como você está?”. Oh my Heart! Liandro… Tenho que ir para o trabalho e não posso responder.

Eu no dia: não consigo prestar atenção, e estou super ansiosa.

Um mês depois: “E aí amiga, o que rolou com o Li?”. “A gente saiu umas 3 vezes e foi legal… mas não deu nada não”.

Eu pensando: “acho que não sou tão bonita, ninguém se interessa por mim.”

Muita gente já encontrou pessoas legais nos aplicativos, saiu namoro, casamento, fizeram amizades e ficou tudo bem. Mas nem sempre é assim. Então, a questão é: como os aplicativos estão te impactando? Como você se percebe ao usar os aplicativos? Tem ficado ansioso? Tem começado a se sentir uma pessoa com autovalor negativo ou não tão legal e bonito? Observe!

Texto fictício escrito por Ana Terra Oliveira

Descontinuidades e continuidades

Sabe aquela sensação de começar e não chegar ao fim? Estamos sempre fazendo planos mentais, destes planos alguns iniciamos com ações concretas, e uma grande parcela de nossos sonhos se perdem no início do caminho. E muito poucos, mas muito poucos levamos adiante e obtemos resultados satisfatórios. São as descontinuidades e a falta de continuidade para as coisas que nos são importantes. Quase sempre existe uma sensação de frustração por nunca realizar aquilo que se busca realizar.

Incrível é que para muitas coisas maléficas temos grande facilidade de seguir o fluxo, somos até disciplinados. Digo dos caminhos equivocados que seguimos que nos trazem dor e confusão para nossas vidas, mas continuamos a fazer. E até parece que não temos controle e eles acontecem e acabamos repetindo contra a nossa vontade. Pois é, é que estamos acostumados, habituados, as vezes são modos de fazer que aprendemos sem perceber com nossos familiares e pessoas que convivemos, e são respostas que damos para a vida para nos defender. Digo que o mal se aprende!

Mas se o mal se aprende e sai do controle e ações equivocadas parecem ser tão comuns, o bem também se aprende, o bem pode ser vivido com autocontrole. O bem precisa ser treinado. Precisa ser exercitado com disciplina diariamente para que se torne também comum aos nossos dias.

Dos planos que fazemos é bem importante pensar de que natureza eles são. As vezes estão camuflados de “bem”, mas são como lobo em pele de cordeiro e nos iludidos. É bom avaliar a fundo nossas intenções. E criar as descontinuidades e as continuidades! Descontinuar caminhos viciados. E criar continuidades para caminhos saudáveis. E para os dois processos é preciso consciência, vontade, intenções corretas, coragem, ações concretas, disciplina, repetição, empenho, persistência. 
Fatalmente frustrações vão ocorrer. São partes dos aprendizados! Mas são frustrações vindas das tentativas, do movimento de buscar aprender e melhorar, bem diferentes daquelas frustrações que surgem de nunca tentar e continuar um plano. Contudo, no frigir dos ovos frustrações são frustrações e precisam ser transformadas, pois uma frustração atuante pode ser uma força destruidora como um furacão a frustrar os mais elevados planos.

Eu já vi muito por aí pessoas frustradas que, inconscientemente, como um carro desgovernado saem atropelando a tudo, a todos e em primeiro lugar a si mesmas com emoções tão negativas, gerando ações tão destrutivas, que quase se autodestroem. Muitos de nós em momentos chutamos essa bola fora! 

As frustrações precisam de ser cuidadas com carinho, precisam de ser redirecionadas. Nada melhor do que uma raiva que aprendemos a descontinuar de nossos dias e não mais fica à espreita, magoada esperando para mostrar com violência sua dor. Nada melhor do que sentir a liberdade de respirar livre de emoções escravizantes. Não há nada melhor do que a liberdade de poder sorrir com a alma limpa! Não há nada melhor do que se libertar dos ensejos de luping de desejos atemorizantes. Não há nada melhor do que se libertar de ciclos indignos, repetições viciantes. Há algo melhor a ser feito com a nossa disciplina, usá-la como um força para caminhar na direção correta!

Há algo melhor do que passar a vida frustrado e frustrando os outros. O melhor é passar a vida realizado e realizando construções que ajudarão os outros a se reconstituírem no amor. E quando o amor bater à porta, continue… dará bons frutos!

Ana Terra Oliveira

Santo é o pecador que nunca desistiu

O santo atingiu a maturidade, penso eu. E por falar em maturidade, como tenho dito nos últimos tempos, quão benéfica é esta conquista! A maior conquista que alguém pode fazer. É atingir um estado de integridade pessoal que traz felicidade para si e para a sociedade. Mas como tornar-se uma pessoa madura? Primeiro tentar, depois não desistir, e no caminho se conhecer e se aprimorar.

Sabemos que estamos sempre buscando por uma vida fácil, uma vida de mínimos esforços e pagamos um preço altíssimo quando decidimos viver de forma superficial, sem aprofundar questões humanas e temas fundamentais para trazer sabedoria para a vida. Pagamos com prejuízos à qualidade de vida.

Nós nos habituamos a viver para satisfazer as necessidades materiais e os gozos dos sentidos. Muito além de consumir, e consumir bens e sensações, o que mais vale a pena na vida é investir em aprimorar-se e crescer interiormente. Embora pareça não ser tão mensurável, a verdade é que a única realidade que existe é o mundo invisível que criamos para viver com a forma de conversar, interagir, agir, o que pensar, o que sentir – são aquilo que faz o nosso mundo ser como é para nós: de paz ou de turbulência!

As vezes é mais fácil investir no carro, na casa, na beleza física, nos dentes… Não que não seja importante, mas é preciso também viver de forma mais profunda, porque o problema do homem e da sociedade sempre foi de natureza ética… E ser ético depende também de criar relações maduras. Ser uma pessoa madura exige trabalho, um trabalho que é revestido de autoconhecimento e transformação sistemática.

Santo é o pecador que nunca desistiu. Essa é uma grande frase dita pelo papa João Paulo II, que contém a chave daquele que deseja se aprimorar. Sabendo que “santo”, penso eu aqui nestes escritos agora, é o lugar da bem-aventurança, da maturidade. O pecador é esse lugar de reincidência de erros e círculos viciosos.

A vida exige transcendência, crescimento, rompimentos, desapegos, fechamentos de ciclos, renascimentos. A vida é um movimento contínuo de um desabrochar infinito, como diz aquela música de Caetano, Canto de um povo de um lugar: “Todo dia o sol levanta, e a gente canta ao sol de todo dia. Fim da tarde a terra cora e a gente chora porque finda a tarde. Quando a noite a lua mansa e a gente dança venerando a noite. Madrugada céu de estrelas e a gente dorme sonhando com elas.” A vida não se esgota, a vida é a todo o segundo uma espera de cuidado. A vida se repete, as circunstâncias podem até se repetir, mas exigem de nós novos comportamentos, novas respostas.

A gente canta, a gente chora, a gente dança, a gente dorme e a gente sonha, enquanto o sol continua a nascer, continua a corar, a lua vem, as estrelas correm para tomarem seus lugares no céu. É esse pulsar da vida que te chama a responder de novo, com mais coerência, a cada passo, verdade? Não que não haverá erros, mas os erros não são motivos de parada e sim degraus da caminhada.

A gente muitas vezes repete aquilo que vai na direção contrária. Mas é um cuidado constante, um redirecionar da bússola, um reverenciar todos os dias, quando você levanta e o Sol nasce, e você pode agradecer pela oportunidade de continuar tentando!

“Uma pessoa madura não é uma pessoa que não erra, porque isso não existe. Uma pessoa madura é uma pessoa que sofre com a própria fragilidade, que sofre com o próprio mal e grita por uma possibilidade de solução disso.” Foi o que o disse sabiamente o professor Miguel Mahfoud.

Pois é, buscar soluções apesar dos pesares… Para a ética e para a maturidade nunca desistir, superar o pecador, e santificar. Santificado seja e que venha a nós o reino de paz.

Ana Terra Oliveira 

Maturidade é saber ser benção para o outro

Eu acredito que a vida é como montar um grande quebra-cabeça. Singular para cada um de nós e sempre tem aquela pecinha essencial que faz tudo casar, uma peça que faz sentido na nossa história, na nossa configuração de vida. As vezes é aquele ponto mais central onde tudo se resolve, onde tudo se encaixa e pode ser até o calcanhar de Aquiles, aquele lugarzinho onde temos que dar mais atenção e cuidar com afinco, pois pode ser o lugar de nossa redenção, mas também o lugar de nossa queda!

O que quero dizer com isso? Que buscar a maturidade é minha redenção, a nossa redenção, mas fragmentar-me é a minha queda. E estou sempre nesta linha tênue. Para mim desenvolver a maturidade é a peça fundamental. Obviamente que é um aspecto essencial a todo homem. Ocorre que chegou um momento da minha vida que eu me tornei consciente dessa peça fundamental. Eu descobri que era por isso que eu havia nascido: para me tornar uma pessoa inteira, atingir a maturidade na sua forma mais elevada, progredindo sempre. E é tudo o que eu faço hoje, é buscar ser uma pessoa inteira e ajudar pessoas neste caminho, a encontrar pontos de equilíbrio, pontos de inteireza. 
Certa vez eu estava na faculdade e eu tinha uma inquietação interna, e eu perguntava: “O que faz com que um homem tenha tamanha força de seguir, superar e atravessar caminhos apesar dos obstáculos, dificuldades, e entraves na caminhada?”

Mas eu não sabia traduzir em palavras exatamente a minha questão. Eu queria saber sobre esse “elã” de viver, esse entusiasmo, essa motivação para a vida, esse impulso vital. Eu conheci uma pessoa que foi benção na minha vida, ela me ajudou a entender onde estavam as peças que eu buscava com tanta inquietação. E para entender todo esse processo de atravessar obstáculos e ter força de seguir eu fui estudar ativamente sobre fragmentação e maturidade. E desde então muitas inquietações encontraram seu lugar, não todas claro, cada nova inquietação surge a cada nova compreensão, é a roda da vida.

Pois é, a maturidade anda junto com a integridade. Então, vale nos perguntar: “aquilo que fazemos, pensamos, sentimos, falamos nos fragmenta ou nos une interiormente?” Bem sabemos que cura é inteireza. Inteireza é peça fundamental para atingir a maturidade. E maturidade é fator de felicidade. É um estar de bem e lidar bem consigo mesmo, com a vida, com os outros.

Nisso três livros viraram meus fiéis amigos: ‘O Ser Fragmentado’, ‘O Ser Inteiro’, ‘Fontes da Força Interior’, de um de meus escritores favoritos, Anselm Grün. Minha boca saliva ao pegar seus livros, me traz muita alegria, ele traduz aquilo que estou ávida por ouvir unindo o conhecimento psicológico e espiritualidade.

E nestes dias eu me lembrei muito de suas palavras, ele diz: “maduro é o ser humano que se tornou coerente em si, não é mais dividido” e “maduro é o ser humano que desenvolveu sua essência e se tornou uma benção para os outros” e “ maturidade não é algo que se desenvolve apenas para si, é também algo que representa um gozo para os outros”.

E como isso tem me chamado a atenção! Eu tenho convivido com pessoas que são tão inteiras, coerentes, e se tornaram bênçãos para os outros! E é tão belo! Esta é a maior beleza que se pode desejar, que se traduz em todos os movimentos, no modo de falar, agir, se expressar. Como é bela a pessoa madura! Onde elas chegam levam harmonia, alegria, são prestativas, agradáveis e compassivas. Sabem respeitar, sabem a hora de falar, o que falar e quando calar. Todos querem ficar perto, todos querem ouvir o que tem a dizer, são pessoas queridas. Estão sempre ajudando os outros, não desdenham, não discriminam, sabem apreciar, admirar os outros e ver o bem.

Então, que tal sermos também bênçãos para o outro? Oferecer sorrisos, gentilezas, falar com mais jeito, mais educação, não ficar tão irritado com qualquer coisa, saber ser mais compreensivo, ser mais amigo, confiar mais, abrir mais o coração para amar e ajudar. Deixar essa fofocação de lado. Nossa, para quê ficar falando mal do outro? É tempo perdido.

Acho que cabe bem essa oração de São Francisco: “mais amar que ser amado, é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado”. Então vale a pena frequentar o salão de beleza da alma e unir tudo o que está fragmentado. Aprender a ser flor, para enfeitar e perfumar os caminhos. Mais que ser espinhos e fazer chorar, é ser benção, embelezar e florescer, frutificar e amadurecer! Maturidade é rendenção! 

Ana Terra Oliveira

Pequenos e Silenciosos Abandonos

Silencioso, inconsciente, imperceptível, sem nenhuma intenção, mais parece cobra sorrateira. Perigosamente invade as relações parentais. Muitos pais conscientemente nunca abandonariam os filhos e aparentemente não abandonam. É o tempo! Mas abram os olhos e o coração, o tempo pode exigir vigilância! A modernidade líquida, que o Bauman nomeou, nos permeia com seus modos e costumes e todos nós precisamos de consciência!

Os pais, se perguntados, desejam dar aos filhos uma ótima educação, valores humanos, afeto, carinho e um futuro brilhante. Os pais fazem de tudo para dar aos filhos o que acreditam ser importantes para seus desenvolvimentos pessoais. Mas é necessário se questionar, olhar para dentro de casa e observar com cuidado: será que o ideal que moveu a formar família, ou sonharem com o nascimento dos filhos na prática se aproxima de uma realização razoável e coerente com o ideal?

É sempre lindo ver sonhos sendo traçados e uma rica experiência de vivências com os filhos! Os pequenos dão milhares de motivos para os pais sorrirem e gargalharem de suas atitudes inusitadas e jeitos de ser irreverentes, a medida que vão crescendo. Mas também necessitam de ser educados, corrigidos, orientados. É preciso encontrar maneiras de lidar com as birras, os choros, as travessuras. São as oportunidades desafiadoras, nem sempre fáceis, mas nunca podem ser negligênciadas a terceiros, é função do pai e da mãe colocar limites e os ajudar a amadurecerem.

Aí está o ponto, amparar os filhos materialmente, cuidando da saúde do corpo; espiritualmente educando com valores e ensinando virtudes; psicologicamente oferecendo afeto, e recursos para desenvolvimento mental, emocional e cognitivo.

Fato é que nem sempre os pais aprenderam como fazer, é bem verdade, nem sempre estão preparados. E digo: nunca estarão! Pois, ter um filho é uma nova experiência nunca antes vivida e te coloca em uma posição totalmente desconhecida: a de pai e de mãe. 

A questão é: por ser desconhecida, por ser uma nova experiência vai exigir esforços, empenho, dedicação, vontade de aprender, desejo de crescer com a experiência, de ser melhor, as vezes, buscar ajuda, buscar informação e também desfrutar deste privilégio. Como tudo na vida, não é mesmo? Mas não é justificável negligenciar a função por inúmeras outras justificativas!

Aí está o ponto! No mundo de hoje, as vezes, quer dizer, com bastante frequência, pais da nossa geração preocupam-se demais com os próprios desejos, com os próprios projetos, com os próprios sonhos, com os próprios trabalhos e colocam em um plano a parte, um segundo ou terceiro plano, a relação com os filhos. Não que não seja importante cuidar de si mesmo, pelo contrário, é muito importante cuidar de estar de bem com a vida, estar mais equilibrado, isso vai influenciar positivamente os filhos.

Digo do egocentrismo que existe entre as pessoas, os excessos, os maus costumes desta modernidade. E sem querer, o abandono vai acontecendo, silenciosamente. É um tal de atrasar para buscar na escola, até que vira um esquecer de buscar o filho; é falar tanto no celular até que se fala mais no celular do que se olha para o filho. É olhar tantas mensagens de zap e postar coisas no insta que conversar com o filho vira incômodo. É ficar até mais tarde no trabalho até ficar só no trabalho e virar visita esporádica na própria casa e não perceber que o dentinho caiu, que o filho está sempre triste e calado. É dar tantos brinquedos e ser impossível tirar um tempo para brincar e dar carinho. Brinquedos não promovem afeto por si próprios. É dar tantas roupas, viagens, e eletrônicos e não se preocupar em dar valores, corrigir, ensinar o certo. Você anda cansado demais e não tem disposição para dar limites. E não percebe que quem está dando os limites é o youtube, é de lá que vem as referências, os exemplos. Quem está educando essas crianças e adolescentes? O YouTube? Você sabe o que seu filho visualiza entre um videozinho e outro? É dar tantas opções às crianças que elas ficam ansiosas.

Sabe, isso tudo parece muito duro de ouvir! Mais duro ainda são os pequenos prejuízos, dos pequenos abandonos, silenciosos e imperceptíveis, que se tornam grandes problemas e transtornos. Não traçam o futuro digno e brilhante que foi sonhado por você, não traçam nem um futuro lá na frente, porque as consequências já são bem mais imediatas, as consequências não tardam muito em chegar, não são como eram antes, elas acontecem imediatamente. O que elas traçam é um presente de desajustes e dor. E eu vejo, eu vejo adolescentes querendo buscar saídas para as carências e as sensações nas drogas. Perdidos, sem nenhuma motivação, sem ânimo de viver e estudar. Incertos de propósitos, não sabem para onde ir. Eu vejo crianças e adolescentes falando que a vida não tem sentido, e que não sabem porque, mas pensam ou já pensaram que seria melhor não viver. Eu vejo o sofrimento de se sentir esquecido, abandonado. Mas não faltam comidas e eles vão ter que conviver com a diabetes, a hipertensão e as comorbidades!

E o que fazer agora? Olhar para dentro de casa, deixar-se tocar, reconhecer a seriedade, tomar nas mãos a responsabilidade, esforçar em fazer diferente, buscar auxílio quem sabe. A vida tem jeito e é isso o que eu faço: eu insisto que a vida tem jeito. Nós temos jeito e essa é a minha grande aposta, por isso eu continuo, por isso eu luto. Nisto eu acredito fortemente. O presente e o futuro brilhante não vem só do desejo, depende do empenho correto, de esperança constante, atitude coerentes, e quando não mais estiver ao alcance, entrega!

Ana Terra Oliveira

Se houver paradoxo, que haja boa poesia!

“Tudo me é lícito, mas nem tudo me convêm.” Esse é um ditado bíblico que eu sempre ouvi dizer. Coríntios nunca se fez tão necessário, tão atual, pois as circunstâncias hoje exigem escolha correta. É preciso vigilância, é preciso buscar conhecimento, sair da ignorância, é preciso presença no agora, certa dose de questionamento sobre as coerências das coisas e muito entendimento prático e consistente sobre o bem para não cair nas seduções da moda.

A sociedade do paradoxo está no meio de nós. Estamos envolvidos hoje na névoa social que o filósofo Lipovetsky veio nos abrir os olhos. É a sociedade hipermoderna onde certos valores são equacionados exponencialmente: hiperconsumismo, Individualismo, hipernacisismo, Imediatismos. Cuidado! Chegamos aos extremos. Estejamos despertos, vigilantes!

São tantas tecnologias, tantas informações, tantas ofertas de produtos. Ansiedade para ter, ansiedade para aparecer. “Ser” nem sempre dá ibope, não dá muitas curtidas e visualizações, nem movem milhões de dólares em clipes do novo álbum. Muitas vezes tem sido assim! Mas eu sei que nem sempre é assim, eis o paradoxo.

Revestidos por este espírito da época, as coisas viram moda e caem no vazio, até mesmo na indignidade, na fragmentação. Tudo é rápido, há logo uma nova versão. A nova versão já existe antes mesmo da última versão ser lançada. Está tudo planejado para incitar o desejo.

Aquela história: você mal acaba de comprar o celular e sente que ele já está ultrapassado. Uma insatisfação constante, que até mulheres e homens querem trocar de cabelo como se trocam de roupa.

E no mundo das reflexões, importantes para mudar o modo de fazer e viver, grandes lições passam pelos dedos despercebidas na rolagem dos feeds das redes sociais… ninguém se demora em refletir apreciando um único pensamento. A mente se agita e logo milhares de pensamentos surgem simultâneos.

Nem sempre é assim, eis o paradoxo. 
Mas deste lado da coisa as postagens de ontem são tão velhas e antigas quanto os casacos do avô. E os textos? Se lidos são engolidos num buraco negro, perdidos, que ninguém é capaz de retornar a meditar sobre… Nem sempre é assim, eis o paradoxo.

Mas aos 30 anos tem gente que já se sente velha, se preocupando em demasia com as rugas, as aparências… É a sensação de velharia que nos acomete. E há jovens tão cansados que fogem de qualquer pesado. Nascidos de pais que muito trabalharam para garantir-lhes os bens e os consumos e as oportunidades deste tempo. Tempo onde é normal não ter tempo para nada, nem para cultivar amizades, olhar nos olhos, completar frases com gentileza, sabe aquele diálogo gentil? Mas a coisa é tudo na base do “Ok!” e às vezes de forma bem autoritária e agressiva.

Poesia então, nem se fala, coisa rara de se ler! Porque exige entrega, exige presença, exige sentir, respirar, pensar, contemplar, exige estar presente no agora! Muitos reclamam da poesia, dizem que é um emaranhado de palavras sem nexo, sem sentido. Eu que sou poeta digo: sem nexo é a indisposição para estar diante da poesia, para viver o agora! Ler poesia pode ajudar a serenar, curar ansiedade, pois não é possível ler poesia com leitura dinâmica. A poesia exige vivência! Exige respiração, entonação, respeito aos ritmos, à pontuação. Quem se arrisca, se transforma!

É preciso mudar de paradigma diante dos paradoxos. Se de um lado existe um espírito permeado pelo vazio de sentido, do outro lado, nunca se viu tantos movimentos em busca pelo saudável, tantas receitas para inovar na alimentação consciente, tanta busca por uma vida mais orgânica, mais simples, próximo à natureza, com proteção aos animais e ao meio ambiente, e a preocupação na garantia dos direitos humanos. E isso é muito bom! É conseguir trazer a luz em tempos que o espírito da época anda tão acinzentado.

Mas é questão de escolha! 
Eu quando ia à praça me deparava com este paradoxo e me intrigava. Eu queria ir a um lugar agradável, com árvores, para respirar e via pessoas alegres brincando com os cachorros na grama verde de um fim de tarde. Pessoas animadas andando de bicicleta, outras fazendo caminhada, yoga, outras fazendo meditação, outras conversando sobre palestras e filmes que traziam boas ideias para o bom vivem. Mas ao mesmo tempo via casais se agredindo, animais abandonados, grupos sentados usando drogas, pessoas estressadas com buzinaços no trânsito…

Este é o paradoxo: a existência dos dois lados da moeda neste mesmo tempo, as vezes em espaços tão próximos. Mas viver e experimentar estes lados é uma escolha. Esta é a grande esperança e liberdade para tempos hipermodernos: é escolha de cada um decidir o que vai viver! Com que parte do paradoxo você ancora a sua vida? É uma questão de escolha! Escolher um implica em abandonar o outro. A escolha é concretizar, solidificar, tornar consistente, para que a vivência real aconteça. Se houver paradoxo, que saibamos escolher pela luz e não pelas cores cinzas. Havendo paradoxo, eu prefiro ficar com o que é bom, eu escolho poesia!

Ana Terra Oliveira